Preços recorde e casas fechadas: as duas faces da mesma crise da habitação nas ilhas atlânticas
Trinta ilhas, quatro arquipélagos e uma semana de notícias. Lidas em separado, parecem realidades distintas: o recorde de preços de uma área metropolitana e o silêncio de um mercado onde quase não se vende uma casa por ano. Lidas em conjunto, descrevem o mesmo problema — um parque habitacional que não pode crescer perante uma procura que não depende da ilha — com dois sintomas opostos.
Onde chega a procura externa
Na metade cara do mapa, os máximos sucedem-se. A área metropolitana de Santa Cruz–La Laguna regista preços nunca vistos, com um esforço das famílias acima do razoável. O Funchal ultrapassa os 3.000 euros por metro quadrado no centro. Ponta Delgada soma trimestres consecutivos de subida. Em Lanzarote a percentagem de compras por estrangeiros está entre as mais altas de Espanha, e no Sal e na Boa Vista o terreno junto à praia paga-se em euros.
Onde não chega
No outro extremo o problema não é o preço, mas a ausência de mercado. No Corvo, com cerca de 400 habitantes, vender uma casa é um acontecimento e não há oferta ativa nos portais. Na Brava e no Maio as operações são residuais. Em São Nicolau há centenas de casas fechadas a maior parte do ano, erguidas com remessas da diáspora, que não se vendem nem se arrendam. Sobram casas vazias e falta habitação.
Um solo que não pode crescer
Entre os dois extremos há uma restrição partilhada. Caleta de Sebo mal pode crescer dentro do Parque Natural do Arquipélago Chinijo. A paisagem vitivinícola do Pico, protegida pela Unesco, trava a construção. O centro histórico de Angra do Heroísmo empurra a procura para fora. No Hierro o solo urbanizável é escasso e a construção nova quase simbólica. No Fogo e na Palma a geologia acrescenta a sua própria hipoteca.
Quem paga e o que se tenta
Os perfis afetados repetem-se: enfermeiros e professores colocados em San Sebastián de La Gomera que não encontram arrendamento, ou jovens da Praia da Vitória e de Valverde que desistem de comprar. As respostas também se assemelham. Las Palmas de Gran Canaria tramita a sua declaração como zona de mercado residencial tensionado, a Madeira procura travar a fuga de habitação para o alojamento local e Fuerteventura tem regulação a caminho. Em paralelo ganha terreno uma ideia mais discreta: reabilitar antes de construir, como nas casas de pescadores de Caleta de Sebo ou nos palheiros de Santana. Também tem o seu reverso, na Palma, onde palheiros e cavalariças são anunciados como habitação «com grande potencial».
A conclusão da semana é que a insularidade não protege do mercado: apenas decide em que direção dói.



