Centenas de casas de emigrantes marcam a paisagem residencial de Vila do Porto sem ocupantes
Uma herança da emigração transatlântica
Muitas casas foram construídas ou ampliadas com remessas enviadas da América do Norte.
Um parque habitacional subaproveitado
Dezenas de casas ficam vazias 10 ou 11 meses por ano.
Entre o valor sentimental e a pressão do mercado
O laço afetivo dificulta que estas casas cheguem ao mercado.
Possíveis vias para mobilizar o parque vazio
Ponderam-se incentivos fiscais para estimular o arrendamento de longa duração.
Uma ilha marcada pela emigração
Santa Maria foi, a par de São Miguel, uma das ilhas açorianas com maior emigração para os Estados Unidos e para o Canadá durante boa parte do século XX, um movimento que deixou uma marca profunda na paisagem urbana de Vila do Porto. As remessas enviadas da Nova Inglaterra e da Califórnia permitiram a muitas famílias construir ou ampliar as suas casas, muitas vezes com uma dimensão e uns acabamentos acima da média da ilha na altura. Historiadores locais consideram que este fenómeno explica boa parte da fisionomia atual do concelho. A ligação à diáspora continua a ser, décadas depois, um traço distintivo da identidade de Santa Maria.
Casas que esperam pelo verão
O padrão habitual é que estas casas permaneçam fechadas a maior parte do ano e abram apenas durante as semanas de verão, quando as famílias emigradas regressam de férias. O comércio local nota uma clara subida de atividade nessas datas, seguida de uma descida acentuada no resto do ano. Algumas famílias começaram a ponderar o regresso definitivo após a reforma, o que poderá alterar no futuro o uso de algumas destas casas. Por agora, no entanto, a maioria continua a funcionar como residência sazonal.
O travão do apego familiar
Apesar de o arrendamento de longa duração poder gerar rendimentos estáveis para os proprietários, a maioria prefere manter as casas fechadas a cedê-las a terceiros, ainda que temporariamente. Este apego explica-se, segundo os residentes ouvidos, pelo valor emocional da casa de família e pelo receio de um mau uso ou da degradação do imóvel. Alguns proprietários optaram, isso sim, pelo alojamento local de curta duração nos meses em que não a ocupam. A combinação de ambos os usos, sentimental e comercial, define hoje o comportamento de boa parte deste parque habitacional.
Medidas em discussão
Responsáveis municipais de Vila do Porto estudam, com o Governo Regional dos Açores, possíveis incentivos fiscais para proprietários emigrados que decidam colocar as suas casas no arrendamento de longa duração para residentes da ilha. Estas medidas inspiram-se em experiências semelhantes aplicadas noutras regiões europeias com forte emigração histórica. A concretizarem-se, poderiam libertar parte de um parque habitacional que hoje permanece praticamente inativo a maior parte do ano. As autoridades insistem em que qualquer solução terá de respeitar a vontade dos proprietários e o laço afetivo que mantêm com as suas casas.



