As salinas de Porto Inglês, entre o abandono industrial e as primeiras propostas de reconversão imobiliária
Uma paisagem industrial parada no tempo
A salina funciona hoje como zona húmida de grande valor ecológico, habitat do borrelho-de-coleira-interrompida.
Ideias de reconversão em cima da mesa
Estão a ser propostos projetos-piloto de entre 20 e 25 milhões de CVE em terrenos contíguos.
O travão da proteção ambiental
O estatuto de zona húmida protegida limita severamente os usos permitidos.
Entre o turismo ornitológico e o betão
O valor como atrativo de turismo de natureza poderá pesar mais do que qualquer projeto imobiliário.
Um passado de exportação que chegou ao fim
As salinas de Porto Inglês chegaram a exportar sal para outras ilhas do arquipélago e para mercados externos durante boa parte do século passado, quando a extração manual empregava um número considerável de trabalhadores locais. O encerramento progressivo da atividade comercial, motivado pela concorrência do sal industrial importado, deixou as instalações sem uso, sem que se planeasse um destino claro para os terrenos. Várias gerações de famílias do Maio guardam memória direta daquela atividade, hoje transformada em património industrial abandonado. É esse vazio de décadas que alguns promotores locais gostariam agora de preencher com novos usos.
Vozes conservacionistas alertam para o risco
Organizações ambientais que trabalham no Maio manifestaram preocupação com qualquer projeto que possa alterar o equilíbrio hidrológico da zona húmida, do qual depende a presença estável do borrelho-de-coleira-interrompida e de outras aves migratórias. Estes coletivos lembram que a salina figura entre os espaços de maior valor ecológico do arquipélago cabo-verdiano e pedem que qualquer desenvolvimento se limite estritamente às parcelas contíguas já degradadas. As autoridades ambientais nacionais pediram relatórios adicionais antes de autorizar qualquer projeto-piloto. O processo de avaliação ambiental perfila-se, assim, como o principal obstáculo para os promotores.
O turismo de observação de aves como alternativa
Guias locais e pequenas empresas de turismo de natureza defendem que a própria salina, sem necessidade de nova construção, pode transformar-se num atrativo suficiente para captar visitantes interessados na observação de aves. Citam como referência outras zonas húmidas protegidas do arquipélago que conseguiram gerar receitas estáveis através de percursos guiados e pequenos centros de interpretação. Este modelo exigiria um investimento muito menor do que os projetos imobiliários propostos e, segundo os seus defensores, geraria menos polémica com os organismos ambientais. A Câmara Municipal do Maio não excluiu combinar ambas as fórmulas no seu planeamento futuro.
Um debate que vai demorar a resolver-se
Nenhuma das propostas de reconversão de terrenos contíguos à salina dispõe ainda de autorização definitiva, e fontes municipais admitem que o processo poderá arrastar-se por mais vários anos. A escassa população do Maio, uma das ilhas menos habitadas de Cabo Verde, faz com que qualquer decisão sobre o uso destes terrenos tenha um peso simbólico maior do que teria numa ilha maior. Enquanto o debate não se resolve, a salina continua a funcionar como zona húmida protegida, sem atividade económica associada. Para muitos moradores, o futuro do local dependerá de se privilegiar a conservação ou o desenvolvimento turístico.



