Os jovens de São Filipe, entalados entre a renda e o preço do solo urbano
Uma capital com solo escasso
São Filipe cresce encaixada entre a arriba e as encostas do vulcão.
Preços fora do alcance de um salário local
Uma casa modesta na periferia é anunciada acima de 4.500.000 CVE.
O arrendamento, a alternativa mais generalizada
As rendas rondam os 15.000 a 30.000 CVE por mês, mas a oferta é limitada.
A emigração como válvula de escape
Muitos jovens emigram para a Praia ou para o estrangeiro antes de pensarem em comprar casa.
Uma cidade sem margem para crescer
São Filipe estende-se sobre uma estreita faixa de terreno entre a arriba virada ao Atlântico e as primeiras encostas do Pico do Fogo, o que deixa muito pouco solo plano disponível para nova construção. Esta limitação geográfica obriga qualquer expansão urbana a procurar terrenos em declive, com o consequente encarecimento da obra. Os técnicos municipais reconhecem que a margem de crescimento horizontal da capital está praticamente esgotada. Esta escassez estrutural de solo é, como concordam agentes imobiliários e autoridades locais, a principal causa da subida sustentada dos preços.
O peso da economia informal
Boa parte dos jovens de São Filipe trabalha no setor informal, sem contrato estável nem rendimentos regulares que possam comprovar junto de uma instituição financeira, o que dificulta enormemente o acesso a crédito à habitação. Esta situação leva muitos a depender exclusivamente da poupança familiar ou de remessas pontuais de parentes emigrados para poderem equacionar a compra de uma casa. Os poucos bancos com presença na ilha mantêm critérios de concessão de crédito considerados rigorosos pela população local. A falta de acesso a financiamento formal é, para muitos jovens, um obstáculo ainda maior do que o próprio preço da habitação.
Programas de habitação social, uma resposta insuficiente
As autoridades lançaram nos últimos anos programas de habitação social destinados a famílias jovens com poucos recursos, embora o número de fogos construídos fique muito aquém da procura existente no município. As listas de espera para aceder a estas casas prolongam-se durante anos, como reconhecem os responsáveis municipais. Coletivos de moradores reclamam um alargamento substancial destes programas, bem como facilidades de acesso a solo para autoconstrução assistida. Entretanto, boa parte dos jovens de São Filipe continua a resolver a sua necessidade de habitação de forma individual e com recursos próprios.
A comparação com a Praia
Muitos jovens que emigram de São Filipe escolhem primeiro a capital, a Praia, antes de ponderarem um destino fora do país, atraídos por uma oferta de emprego um pouco mais ampla e por rendas que, embora também elevadas, oferecem maior variedade do que as do Fogo. Esta escala intermédia da emigração interna tornou-se um padrão habitual entre a população jovem da ilha. Agentes imobiliários do Fogo assinalam que a comparação com a Praia se tornou um argumento recorrente entre quem pondera se vale a pena esperar para comprar na sua ilha de origem. Para boa parte dos jovens, porém, nem a Praia nem São Filipe garantem hoje um acesso fácil à habitação.



