O crescimento urbanístico do Sal esbarra nos limites da água dessalinizada e da energia
Uma ilha sem água doce própria
A dessalinização cobre a esmagadora maioria do consumo de água potável da ilha.
Um recurso que condiciona cada nova promoção
O sobrecusto de infraestrutura hídrica e elétrica ronda os 700.000 CVE por habitação.
A energia, um estrangulamento paralelo
Os picos de consumo em época alta põem à prova a capacidade da rede.
Um limite físico ao modelo de crescimento
Sem ampliar a dessalinização e a produção elétrica, o ritmo atual não se conseguiria sustentar.
Décadas de dependência total do mar
O Sal não tem cursos de água permanentes nem aquíferos suficientes para abastecer a sua população, pelo que depende há décadas da água do mar dessalinizada, muito antes de o turismo ter transformado a ilha. Aquela infraestrutura, pensada originalmente para uma população bem mais reduzida, foi sendo alvo de ampliações sucessivas à medida que cresciam os hotéis e os empreendimentos turísticos. Técnicos do setor reconhecem que cada nova fase de expansão turística exige, quase automaticamente, um novo reforço da capacidade de dessalinização. Esta dependência estrutural faz da água o verdadeiro limite físico do crescimento da ilha.
Promotores assumem o sobrecusto como parte do negócio
Os promotores que operam no Sal integraram o sobrecusto de infraestrutura hídrica e elétrica como mais uma rubrica nos seus cálculos de viabilidade, acabando por transferi-lo para o preço final da habitação. Alguns projetos de maior dimensão negoceiam diretamente com as empresas de dessalinização o aumento de capacidade em troca de compromissos de compra a longo prazo. Esta fórmula permite financiar novas centrais sem depender exclusivamente de investimento público, embora encareça o produto final para o comprador. Os pequenos promotores locais, sem idêntico poder negocial, reconhecem que competem em desvantagem face às grandes cadeias hoteleiras internacionais.
A rede elétrica, sujeita a picos cada vez maiores
Os meses de maior ocupação turística coincidem com o uso intensivo de ar condicionado em hotéis e habitações, o que gera picos de procura elétrica que a rede da ilha gere com margens cada vez mais estreitas. A empresa elétrica nacional anunciou planos de reforço da produção no Sal, embora a sua execução avance mais devagar do que o próprio ritmo de construção de novas camas turísticas. Já se registaram, em ocasiões recentes, cortes pontuais de fornecimento nos momentos de maior procura. O setor hoteleiro pressiona para que estes investimentos sejam acelerados antes de serem autorizados novos projetos de grande dimensão.
Um limite que começa a condicionar o planeamento
As autoridades municipais do Sal começaram a fazer depender a aprovação de novas licenças urbanísticas da disponibilidade efetiva de água e de energia, em vez de as tramitarem automaticamente como até aqui. Esta condição, ainda informal, marca uma mudança de abordagem face ao modelo de crescimento sem restrições que caracterizou a ilha nas últimas décadas. Alguns investidores estrangeiros manifestaram preocupação com a incerteza que isto introduz nos seus planos de expansão. Para os técnicos municipais, porém, é preferível travar a tempo do que enfrentar um colapso dos serviços básicos em plena época alta.



