O boom do alojamento rural dispara o interesse pela Fajã dos Vimes apesar da proibição quase total de construir
Uma paisagem que se tornou cobiçada
A Fajã dos Vimes e a Fajã da Caldeira de Santo Cristo, na Calheta, são as mais procuradas da ilha.
Heranças, não empreendimentos
Quase todas as operações são vendas de casas herdadas por famílias emigradas, recuperadas para turismo.
Um mercado de "casas contadas"
O número de imóveis transaccionáveis conta-se por dezenas, não por centenas.
O dilema da ilha
A valorização permite manter as casas habitadas, mas afasta as famílias jovens.
Uma paisagem única formada por derrocadas
As fajãs de São Jorge são planícies costeiras nascidas de antigas derrocadas de terra e lava que se acumularam ao pé das arribas da ilha, criando pequenos enclaves habitáveis junto ao mar. A Fajã dos Vimes, com a sua vegetação exuberante e o seu microclima particular, tornou-se uma das mais fotografadas do arquipélago. Esta origem geológica, aliada ao isolamento histórico destas comunidades, explica o reduzido número de casas existentes em cada fajã. É essa escassez estrutural que hoje alimenta o interesse imobiliário por propriedades que praticamente nunca chegam ao mercado aberto.
Famílias emigradas decidem o destino da casa
A maioria das casas da Fajã dos Vimes pertence a descendentes de famílias que emigraram há gerações para os Estados Unidos ou para o Canadá e que hoje têm de decidir entre vender a casa herdada, mantê-la fechada ou investir na sua reabilitação para uso turístico. Esta decisão costuma ser tomada colectivamente entre vários irmãos ou primos comproprietários, o que prolonga os processos de venda ou de obras. Quando finalmente se opta pela reabilitação, o resultado destina-se em geral ao alojamento local e não à venda definitiva. Este padrão explica por que razão tão poucas casas nas fajãs mudam de dono, apesar do interesse crescente.
Restrições urbanísticas quase absolutas
O planeamento municipal da Calheta proíbe praticamente qualquer nova construção nas fajãs, tanto por motivos de risco geológico como pela vontade de preservar uma paisagem considerada património singular da ilha. Esta restrição transforma as casas existentes num bem finito, sem possibilidade de aumento da oferta a médio prazo. Os poucos proprietários que pedem licença para obras têm de respeitar critérios rigorosos quanto à volumetria e aos materiais tradicionais. Para muitos moradores, é precisamente esta rigidez das normas que permitiu conservar o carácter que hoje atrai os visitantes.
O custo de manter as fajãs vivas
A valorização das casas da Fajã dos Vimes tem um lado positivo, ao evitar que acabem abandonadas e em ruína, como sucedeu noutras fajãs menos conhecidas da ilha. Ainda assim, os preços atingidos pelas escassas propriedades disponíveis ficam fora do alcance de famílias jovens de São Jorge que gostariam de se instalar ali de forma permanente. Este contraste entre conservação do património e acesso à habitação repete-se em vários enclaves semelhantes do arquipélago açoriano. O futuro destas comunidades dependerá, segundo os moradores ouvidos, de se encontrarem fórmulas que conciliem ambos os objectivos.



