A emigração histórica para os Estados Unidos deixa no Maio mais casas fechadas do que ocupadas em algumas localidades
Um fenómeno de longo curso
A emigração para Massachusetts e Rhode Island remonta a várias gerações.
Casas à espera do proprietário
Em Morrinho não é raro encontrar casas em bom estado, mas desabitadas.
Um mercado de usados peculiar
Quando chegam ao mercado, a partir de cerca de 900.000 CVE, os negócios são lentos devido às heranças partilhadas.
Efeito sobre a paisagem urbana
Contribui para uma sensação de estagnação em vários núcleos do interior.
Morrinho, uma aldeia com mais chaves do que residentes
Em Morrinho, os moradores que ficam todo o ano descrevem ruas inteiras onde a maioria das casas só é aberta durante as visitas de verão dos seus proprietários. Alguns residentes permanentes lamentam a sensação de isolamento provocada por ver tantas casas fechadas durante boa parte do ano. Outros moradores, também com familiares emigrados, compreendem o apego sentimental de quem mantém a casa mesmo sem lá viver. A associação de moradores pediu à Câmara Municipal que facilite o recenseamento destas propriedades, para melhor conhecer a dimensão do fenómeno.
Gerações de emigração para a Nova Inglaterra
A saída de população do Maio para Massachusetts e Rhode Island remonta ao final do século XIX, historicamente ligada à atividade baleeira e, mais tarde, à procura de emprego industrial. Investigadores locais assinalam que essa emigração se prolongou durante gerações, consolidando comunidades cabo-verdianas estáveis em cidades como New Bedford ou Providence. Muitas das casas hoje fechadas pertencem a descendentes de terceira ou quarta geração, que mantêm a propriedade mais por vínculo familiar do que por uso efetivo. Historiadores da diáspora consideram que o Maio é uma das ilhas onde este padrão migratório se torna mais visível na paisagem urbana.
Heranças que travam a compra e venda
Quando uma destas casas chega finalmente ao mercado, notários e agentes imobiliários da ilha descrevem processos de venda especialmente demorados, devido ao número de herdeiros dispersos entre Cabo Verde e os Estados Unidos. Resolver a titularidade pode levar anos, já que alguns comproprietários nem sequer visitam a ilha há décadas. Esta situação reduz a oferta real de habitação disponível, apesar de o parque de casas fechadas ser considerável. Os profissionais do setor reclamam mecanismos mais ágeis para regularizar este tipo de heranças fragmentadas.
Um desafio para o futuro do interior da ilha
A Câmara Municipal do Maio estuda fórmulas para incentivar que estas casas sejam colocadas no mercado de arrendamento ou vendidas, com o objetivo de travar a sensação de estagnação em núcleos como Morrinho. Foi colocada a possibilidade de contactar diretamente associações da diáspora em Massachusetts para explorar programas de reabilitação. Alguns moradores veem no turismo rural uma oportunidade para dar novo uso a estas casas sem que as famílias percam a propriedade. Por enquanto, nenhuma iniciativa concreta passou da fase de estudo.



