Vila do Maio recupera um punhado de casas tradicionais ligadas à antiga indústria do sal
Um legado arquitetónico em risco
O centro histórico conserva casas da época de esplendor do comércio de sal com Inglaterra.
Reabilitações pontuais
As obras oscilam entre 1.500.000 e 3.000.000 CVE por casa.
Falta de mão de obra especializada
São trazidos especialistas de Santiago, o que encarece cada projeto.
Um património à procura de reconhecimento
Os apoios institucionais disponíveis continuam a ser muito limitados.
Memória do porto do sal
No século XIX e no início do XX, o porto de Vila do Maio embarcava sal para os mercados europeus, e foi com esses lucros que se ergueram muitas casas do centro histórico. Os proprietários da época mandaram colocar balaustradas de ferro e caixilharia trazida de Portugal e de Inglaterra. O declínio da indústria salineira deixou boa parte do conjunto sem manutenção durante décadas. Historiadores locais consideram que o bairro conserva um valor testemunhal pouco comum no arquipélago.
O papel da diáspora
Boa parte das reabilitações em curso é financiada por cabo-verdianos emigrados nos Estados Unidos, nos Países Baixos e em Portugal que ainda mantêm a propriedade das casas de família. Estes proprietários costumam encomendar as obras à distância, coordenando-se com familiares ou gestores locais que acompanham o avanço dos trabalhos. Para muitos, o restauro responde tanto ao vínculo afetivo com o Maio como à vontade de ter uma casa para o regresso. Os promotores locais admitem que, sem este capital vindo de fora, boa parte das obras atuais não teria arrancado.
Comparação com outras ilhas
Na Boa Vista e no Sal, a recuperação da arquitetura colonial avança mais depressa graças à pressão do turismo e a programas de incentivo municipal. O Maio, com um fluxo turístico muito menor, não conta com esse mesmo estímulo, o que abranda o ritmo das intervenções. Técnicos do setor consideram que a ilha poderia beneficiar de fórmulas semelhantes se conseguisse atrair uma procura turística mais estável. Por agora, as reabilitações dependem quase em exclusivo da iniciativa privada.
Um reconhecimento patrimonial por concretizar
Coletivos locais reclamam há anos uma figura de proteção mais sólida para o conjunto histórico de Vila do Maio, semelhante à de outros centros do país. As autoridades municipais reconhecem que os apoios disponíveis são insuficientes face ao custo real das obras. Um residente ouvido por este meio resume que dá gosto ver estas fachadas outra vez de pé, embora sejam precisas mais famílias a viver ali todo o ano. Sem um quadro de incentivos mais claro, o ritmo de recuperação continuará a depender do esforço de cada proprietário.



