Mindelo encarece o seu centro histórico enquanto a diáspora dispara a compra de casa
O Mindelo, a cidade mais cosmopolita de Cabo Verde e capital cultural do arquipélago, vive uma transformação silenciosa do seu mercado imobiliário. Longe do turismo de massas do Sal ou da Boa Vista, o impulso aqui vem de outro lado: a diáspora cabo-verdiana em Portugal, nos Países Baixos, no Luxemburgo e nos Estados Unidos, que continua a comprar ou a reabilitar casas na ilha a pensar num eventual regresso ou em mantê-las como investimento familiar.
Preços em alta no centro histórico
Segundo agências imobiliárias locais, uma casa tradicional para reabilitar no centro histórico do Mindelo —perto do Mercado Municipal ou da zona da Rua de Lisboa— pode já rondar os 8 a 12 milhões de CVE (entre 72.000 e 108.000 euros, aproximadamente), enquanto um apartamento novo em zonas como Monte Sossego ou Ribeira Bote oscila entre os 45.000 e os 60.000 CVE por metro quadrado. Fontes do setor destacam que boa parte destas operações se fecha à distância, com compradores residentes na Europa que entregam a gestão a familiares ou a agentes locais.
Um mercado dual: emigrantes contra residentes
Esta dinâmica gerou um mercado a duas velocidades. Enquanto a procura da diáspora pressiona em alta os preços de compra e venda, os salários locais —muito dependentes do setor portuário, da pesca e de serviços turísticos de menor escala— não acompanharam o mesmo ritmo, como reconhecem fontes municipais. O resultado é que um número crescente de jovens mindelenses opta pelo arrendamento em bairros periféricos como Fonte Francês ou Chã de Alecrim, onde os preços, ainda que também em subida, continuam a ser mais acessíveis.
O porto e a cultura, motores paralelos
Ao contrário de outras ilhas, São Vicente não depende de resorts de praia: o seu apelo combina o porto comercial, a vida cultural —festivais, música, gastronomia— e um turismo de perfil mais urbano e de cruzeiros. Esse carácter singular faz com que o investimento imobiliário não se concentre em grandes complexos turísticos, mas em pequenas propriedades, casas de hóspedes e lojas do centro, o que, segundo fontes do setor, mantém o mercado mais fragmentado e menos especulativo do que nas ilhas orientais do arquipélago.
A resposta municipal, ainda em fase de diagnóstico
A Câmara Municipal de São Vicente lançou estudos para atualizar o plano urbanístico do Mindelo, com o objetivo declarado de proteger o património histórico da cidade face à pressão de reabilitações pouco planeadas, ao mesmo tempo que pondera libertar solo nas zonas altas da cidade para habitação destinada a famílias jovens. Por agora, segundo fontes municipais, trata-se de planos em fase de diagnóstico, sem um calendário de execução fechado.



