Casas modestas frente a vivendas de luxo: o contraste imobiliário que define hoje a ilha do Sal
Dois mercados que quase não se tocam
As vivendas turísticas ultrapassam os 35.000.000 CVE, face aos 4.500.000 CVE da habitação familiar.
Materiais, dimensão e serviços muito diferentes
Os resorts incluem piscinas e ar condicionado; a habitação local constrói-se por fases.
Um mesmo território, duas velocidades
O turismo compete pelos mesmos recursos de água, energia e acessos que a habitação comum.
Apelos a um desenvolvimento mais equilibrado
Pede-se que o crescimento dos resorts fique condicionado a investimentos em habitação acessível.
O dia a dia nos bairros de Santa Maria
Nos bairros populares de Santa Maria, longe da faixa hoteleira, as famílias convivem diariamente com o contraste que define o mercado imobiliário do Sal. Os moradores ouvidos referem que o encarecimento do terreno turístico não se traduz em melhorias diretas para a sua zona, mas antes numa subida generalizada dos preços de bens e serviços. Muitas casas de família continuam a ser ampliadas por fases, à medida que entram os rendimentos, enquanto a poucos quilómetros os resorts concluem as suas obras em prazos muito mais curtos. A distância entre os dois mundos nota-se, sobretudo, no acesso a água canalizada e a eletricidade estável.
Comparação com a Boa Vista
O padrão não é exclusivo do Sal. Na Boa Vista, a ilha vizinha, a expansão dos complexos tudo incluído produziu um fosso semelhante entre o valor do terreno turístico e o da habitação residencial. Analistas do setor referem que ambas as ilhas partilham um modelo de crescimento apoiado quase em exclusivo no turismo internacional, o que multiplica a pressão sobre os recursos comuns. A diferença é que no Sal o processo está consolidado há mais anos, pelo que o fosso de preços é já mais visível.
A resposta das autoridades municipais
A autarquia do Sal reconhece a dificuldade de conciliar o apelo turístico com o acesso à habitação por parte da população residente. Fontes municipais adiantam que estão a ser estudadas fórmulas para exigir aos novos projetos hoteleiros contribuições específicas para programas de habitação acessível, em linha com o que se debate noutras ilhas do arquipélago. Para já, nenhum acordo vinculativo foi formalizado, e as organizações de moradores insistem em que as promessas se devem traduzir em prazos e números concretos.
Um modelo com poucos precedentes de reequilíbrio
Especialistas em desenvolvimento territorial lembram que poucos destinos turísticos conseguiram inverter este tipo de fosso depois de consolidado. Para o Sal, o desafio passa por diversificar uma economia muito dependente do setor hoteleiro antes que o desfasamento entre os dois mercados se torne estrutural. Entretanto, o preço da habitação familiar continua longe da valorização que o terreno turístico regista, e as perspetivas a curto prazo não apontam para uma inversão da tendência.



